A importância do saber cuidar na prática pastoral

Ary Carvalho Junior[2]

 Introdução

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e meu fardo é leve.” (Mateus 11.28).  O cristianismo nos apresenta o Deus Encarnado, Jesus de Nazaré, como alguém que vivenciou cuidados, inclusive tocando pessoas enfermas, curando-as e colocando as mãos sobre a cabeça das crianças, abençoando-as.  O cuidado de Jesus para com os outros era imensamente prático. 

Cuidar é uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilidade e de envolvimento afetivo com o outro. O cuidado pastoral é o sinal da presença de Jesus, e quem concede este cuidado, precisa ser um mensageiro da esperança e da cura de Cristo.

A técnica do aconselhamento pastoral precisa ser organizada.  Os pastores e agentes pastorais precisam resgatar o sentido primevo, que se reflete na palavra cuidar.  O pastor é aquele que provê alimento.  Este alimento, que é a palavra de Deus, unida às ações reais no cotidiano das pessoas, precisa conduzi-las a formação de Cristo nas suas vidas. O cuidado pastoral vai sempre acontecer em um campo aberto, onde pensamentos, valores, anseios, sentimentos aflorarão na medida em que esta pessoa vai se abrindo para a transformação da mente e do coração.

A filologia do cuidar

Conforme Leonardo Boff[3] (2001, p. 33), a palavra cuidado tem a mesma raiz da palavra cura.  Em sua forma mais antiga, no latim, cura escrevia-se coera e era usada num contexto de relações de amor e amizade. No entanto, lembra o próprio autor, outros pesquisadores consideram-na derivada de cogitare-cogitatus, no latim, cujo sentido é o mesmo de cura: cogitar, pensar, colocar atenção, mostrar interesse, revelar uma atitude de desvelo e de preocupação.

O cuidado (cogitatu, ou seja, pensado) somente surge quando a existência de alguém tem importância pessoal. Cuidado significa, então, desvelo, solicitude, diligência, zelo, atenção, bom trato. O cuidado tem sido lugar de encontro interdisciplinar de saberes que se projetam tanto no ser humano quanto no cosmos. É possível o cuidado a objetos, plantas, animais, rios, pessoas ou ao planeta Terra.

A partir desse valor substantivo emerge a dimensão de alteridade, de respeito, de sacralidade, de reciprocidade e de complementaridade. Leonardo Boff destaca que “o cuidado significa uma constituição ontológica sempre subjacente, sendo a constituição ontológico-existencial mais original do ser humano”. O autor defende uma relação entre cuidado e compaixão, compreendendo o ser humano como um “ser de cuidado e de compaixão”.

Na atividade pastoral, o cuidado é condição sine-qua-non, pois cuidar pressupõe que há alguém que cuida e alguém que é alvo desse cuidado.

O aconselhamento como forma de cuidado pastoral

Max Lucado (2002) em seu livro “Aliviando a Bagagem” destaca: “De todos os animais criados por Deus, a ovelha é a menos capaz de cuidar de si própria”.

Não foi por acaso que Davi escolheu a ovelha para ilustrar o ser humano. Assim como as ovelhas precisam e dependem de um pastor, o ser humano precisa de Deus.

O pastoreio depende essencialmente do amor de Deus pelas suas ovelhas. O amor, biblicamente falando, não é definido apenas como um sentimento. O amor se expressa em ações concretas na relação com a pessoa amada. O vocábulo grego ágape traduzido por amor nos textos do Novo Testamento, pressupõe sacrifício e disponibilidade pessoais em relação à pessoa amada. Davi, diz que o Senhor Deus, na condição de Grande Pastor, vivencia esse amor em ações concretas.

Paul Tillich (1959, p.21) assevera que o cuidar é universalmente humano: “O cuidar é universalmente humano. Ninguém pode cuidar de si mesmo em todas as situações. Ninguém pode, até mesmo, falar a si próprio sem que lhe tivesse sido falado por outrem”.

Ronaldo Sathler Rosa (2004) em “Cuidado Pastoral em Tempos de Insegurança” trabalha como eixo central o tema do cuidar, cuidar como elemento fundamental nas relações que procurem à fidelidade e que motivem o serviço para o livre caminhar das pessoas, grupos, famílias no difícil caminho do abandono de si mesmas.

Aconselhamento Pastoral pode ser definido como um processo através do qual “as pessoas se encontram para repartir lutas e esperanças”. A motivação para o exercício dessa modalidade de cuidado tem raízes, especialmente, na mensagem bíblica do Reino de Deus que anuncia a Boa Nova para a humanidade. Nessa tarefa podemos recorrer, além dos recursos tradicionais do pastoreio cristão, tais como as Escrituras, a tradição, os meios de graça e a teologia, às ciências que investigam a natureza humana e que têm como compromisso a busca da plena saúde humana.

Wayne Oates (1974, p. 9-10) define Aconselhamento Pastoral como:

[…] “disciplina não-médica cujos objetivos essenciais são facilitar e agilizar o crescimento da personalidade; ajudar as pessoas a modificarem padrões de vida com os quais estão insatisfeitas e prover companheirismo e sabedoria para as pessoas que estão enfrentando perdas e desapontamentos.”

Vivemos em um mundo em que muitos se sentem solitários. Às vezes não têm a quem procurar para dividir suas preocupações, suas lutas e suas alegrias. A figura do pastor representa, para muitos, um porto seguro onde as pessoas podem se ancorar, narrar suas dificuldades e, mais importante, podem ser ouvidas com atenção. Quando se encontra alguém disposto a ouvir essa atitude cria condições para que as pessoas ganhem novas perspectivas sobre si mesmas e sua existência.

É preciso dar atenção às palavras ditas pelas pessoas que procuram apoio pastoral. Nesse caso, fala-se, também, através do longo silêncio e dos espaços silenciosos. É preciso aceitá-los como expressão de sentimentos difíceis de serem ventilados. Podemos aprender a “ouvir” o silêncio de outras pessoas e a nos sentirmos à vontade com o nosso próprio silêncio diante do inexplicável, do imponderável, do inesperado. O silêncio também fala. E a Palavra pode desvelar-se no silêncio. Como lembra G. Gutierrez (1984 p. 44), “a teologia é um falar enriquecido por um calar”.

O Aconselhamento Pastoral tem como objetivo promover a maturidade cristã, ajudar as pessoas amadurecerem, entrando numa experiência mais rica de adoração a Deus, numa vida mais efetiva de serviço a Deus e ao próximo, em todos os momentos e circunstâncias da vida.  Deve levar o aconselhando a deportar-se com todos e quaisquer problemas da vida, com uma determinação de agir coerentemente com as Escrituras. E conseqüentemente desenvolvendo um caráter interior que se conforme com o caráter (atitude) crenças e propósitos de Cristo.

O pastor, ao lidar com problemas apresentados, deve levar em conta a dignidade da imagem de Deus e a depravação do pecado como sendo elementos fundamentais do ser humano.

O ACONSELHAMENTO PASTORAL HOJE

O Teólogo Julio César Zabatieiro diz que para o pastor cuidar bem do rebanho de Cristo ele precisa primeiro ser cuidado pelo Supremo Pastor.

Muitos pastores e modelos pastorais hoje têm uma visão do cuidado pastoral na moldura da multidão no templo, do frenesi momentâneo produzido na reunião, na cura realizada, nas campanhas destituídas de afeto relacional e de interesse genuíno na dor do outro.

O cuidado pastoral não pode ser somente via púlpito, via reunião em suas várias expressões, mas ele deve seguir o modelo cristológico da aproximação, da compreensão, da percepção, da misericórdia, do ensino curador, libertador, do envolvimento em todas as facetas da vida desde a alegria até a tristeza, a dor, desde a vida ate a morte desde o ganho ate a perda. Ele deve estar solidificado na justiça e na paz.

Henry Nouwen (2001) em seu livroO Sofrimento que Cura”, mostra que o cuidado pastoral contemporâneo deve ser margeado também por uma compreensão do componente humano, mostrando também a visão macro do ministério e do cuidado pastoral que abrange não só a “igreja”, mais o “bairro”, a “cidade” e o “mundo” do Senhor. Um cuidado integralizado, pois Jesus Cristo, modelo de cuidado pastoral, não armou a sua tenda num “gabinete pastoral” e esperou as pessoas virem a ele, mas ele armou sua tenda de cidade em cidade, abençoando as vidas na busca do perdido, na busca da justiça em seu tom integral, na busca do fraco, dos injustiçados, na busca dos que não tinham amigos, na busca do perdido.

Jesus Cristo, em seu cuidado pastoral, não priorizou a multidão mais o indivíduo que faz parte da multidão.  Hoje essa atitude é bem diferente.  Muitos pastores valorizam o aglomerado humano como massa de manobra do que o indivíduo como imagem de Deus, priorizam o reino aqui e agora e o patrulhamento ideológico como sucesso terreno, gloria humana, corredor da fama, trocadilho financeiro, promessas de um pseudo Celeste por vir em contornos humanistas, e uma ênfase demasiada na pregação egocêntrica e das necessidades.

A reformulação da excelência do ministério e do cuidado pastoral é sem dúvida necessária e urgente e deve ter a cruz de Cristo como modelo. David Hansen (2001) em seu livro “A Arte de Pastorear”, diz que o cuidado pastoral e o ministério pastoral jamais podem ser dirigidos por tendências contemporâneas como modismo, tarefas, entre outros.  Ele faz uma crítica aos teólogos profissionais que reduziram o trabalho pastoral em realização de coisas e isso gera uma falta de tempo para a leitura já que os teólogos profissionais reclamam que pastores quase não lêem. Ele diz que devemos prestar atenção em duas áreas do ministério de Jesus Cristo que é importante para esse resgate do excelente: Primeiro o seu “ministério” e segundo o “roteiro de sua vida”.

O Aconselhamento Pastoral hoje constitui dentro dos princípios e das práticas cristãs, um dos setores específicos do ministério do Pastor. Pois o Aconselhamento Pastoral abrange uma área de especialização na teologia pastoral. Tem como propósito, dentre outros, a re-orientação para a vida, educação, higiene mental, recondução e a administração da vida espiritual.

          Tem como objetivo, ajudar a pessoa a enfrentar eficazmente a situação difícil e voltar ao seu nível comum de comportamento. Diminuir a ansiedade, a apreensão e outros tipos de insegurança que possam persistir depois de ter passado a crise. Ensinar técnicas de solução de crises, a fim de que a pessoa fique melhor preparada para antecipar e tratar das crises futuras. E considerar os ensinos bíblicos sobre as crises, a fim de que a pessoa aprenda com as mesmas e cresça como resultados dessa experiência.

 

 

A ÉTICA PASTORAL

Richard L. Mayhue[4] mostra quais são as responsabilidades básicas do pastor baseando na epístola do apóstolo São Paulo aos irmãos de Tessalônica:
Orar (I Ts.1.2,3;3.9-13); Evangelizar (I Ts.1.4,5,9,10); Capacitar (I Ts.1.6-8); Defender ( I Ts. 2.1-6); Amar ( I Ts. 2.7,8); Labutar ( I Ts.2.9); Exemplifica r ( ITs.2.10);   Liderar ( I Ts.2.10-12); Alimentar ( I Ts. 2.13); Vigiar ( I Ts.3.1-8); Alertar ( I Ts. 4.1-8); Ensinar ( I Ts. 4.9-5.11); Exortar (I Ts. 5.12-24); Encorajar ( II Ts. 1.3-12); Corrigir ( II Ts. 2.1-12); Confrontar ( II Ts. 3.6,14) e Resgatar ( II Ts. 3.15).

A comunicação, na prática do aconselhamento pastoral precisa ser terapêutica, embora o processo de aconselhamento não seja ‘terapia’, em sentido estritamente técnico-profissional. Ou seja, em seu modo próprio, proclama a Palavra de salvação – cuja expressão na Bíblia acha-se associada a termos tais como ‘saúde’, ‘paz’, ‘bem-estar’, que se torna visível, também, em condições gerais de bem-estar, na saúde e em relacionamentos significativos. Além disso, pastores e pastoras devem honrar o compromisso da confidencialidade.

Em seu livro “Despertando para um Grande Ministério”, H.B London Jr. e Neil B. Wiseman pensando em termos ministeriais dizem que:

Toda a responsabilidade é terra santa por que Jesus se entregou pelas pessoas que vivem ali. Todo lugar é importante por que Deus quer que você realize algo sobrenatural ali. Toda situação é especial por que o ministério é necessário ali. Como a Rainha Ester, você veio para o Reino para um tempo como este. (LONDON JR & WISEMAN,1996, p.20).

 

 Isso é um fato importante a ser tratado por que o cuidado pastoral deve ser elevado á um grau de excelência e não uma peça decorativa na atividade poimênica. A igreja corpo de Cristo tem que ser cuidada, protegida, amada, curada, sanada, crescente e isso somente acontecerá a partir de uma visão cristológica.

Como a rainha Ester (Ester 4.16), este é o nosso tempo e não podemos deixar escapar o sobrenatural de Deus nas vidas das pessoas a partir de um cuidado pastoral sadio. O Brasil contemporâneo a nível eclesial tem enfrentado muitos problemas no campo eclesiástico e doutrinal em virtude do pragmatismo e o afastamento dos princípios da palavra de Deus, porém urge a hora que Deus nos chama para fazer diferença em épocas nebulosas.

Com a Bíblia nas mãos e com o coração encharcado de misericórdia e compaixão, é possível celebrar a comunhão como caminho de cura e ação terapêutica no cuidado pastoral como expressou o Dr. Larry Crabb  (2000) em seu livro “O lugar mais seguro da Terra.

 O cuidado pastoral não é feito somente por uma única pessoa e sim pela comunidade da fé, esse cuidado também não está trancado no chão geográfico eclesial mais ele se move em busca do aflito em solução de conflito apaziguando as beligerâncias humanas. Ele se mistura e se envolve no drama do outro e no rosto do outro contempla a face de Deus.

Esse cuidado pastoral não se move em busca de honra, favor, glória, fama mais ele se posiciona como se posicionou o bom samaritano que atendeu o ferido sem pedir nada em troca e viu no outro o seu próximo.

 

 

Conclusão

A prática do aconselhamento pastoral é fundamental na sociedade em que vivemos. As pessoas continuam com problemas, mas a igreja pode ajudá-las a vencer a si mesmas, às dificuldades interiores e aos obstáculos que se formaram no decorrer de sua existência. As pessoas precisam ser cuidadas, necessitam de apoio para continuar sobrevivendo e há métodos que podem ser utilizados pelo conselheiro pastoral.

Esse conselheiro não precisa ser necessariamente o pastor da igreja. Membros da igreja podem receber treinamento teórico e prático para auxiliar a liderança da igreja e ajudar aqueles que necessitam de cuidados.

 

Referências

 

BOFF, Leonardo. Saber Cuidar. 7ª ed. Petrópolis: Vozes, 2001.

CRAAB, L. O Lugar mais seguro da Terra. São Paulo: Mundo Cristão, 2000.

GUTIERREZ, Gustavo. Falar sobre Deus. Concilium 191 (1984), p. 44.

HANSEN, David. A arte de pastorear. São Paulo: Shedd Publicações, 2001.

LONDON H.B. – WISEMAN Neil Despertando Para um Grande Ministério: Um Livro de Pastor para Pastor. Traduçao Guilherme Kerr. Sao Paulo: Editora Mundo Cristao 1996.

LUCADO, Max. Aliviando a bagagem. RJ:  CPAD, 2002.

MACARTHUR, JOHN. Redescobrindo o Ministério Pastoral: Moldando o Ministério Contemporâneo aos Preceitos Bíblicos. Traduçao Lucy Yamakami. Rio de Janeiro: Editora CPAD. 1999.

MAYHUE, Richard L.  “A Família do Pastor”, cp. 9 em John MacArthur, Jr. Redescobrindo o Ministério Pastoral. RJ:  CPAD, 1999.

NOUEWN Henri, O Sofrimento que Cura: Por meio de Nossas próprias feridas, podemos nos tornar fonte de Vida para o Outro, traduçao Pedro Elyseu Scweitzer, Sao Paulo: Ediçoes Paulinas, 2001.

OATES, Wayne. The Bible in Pastoral Care. Philadelphia, Westminster, 1953.

SATHLER-ROSA, Ronaldo. Cuidado Pastoral em Tempos de Insegurança. Uma Hermenêutica Contemporânea. São Paulo: ASTE, 2004

ZABATIERO, Julio. Cuida (n) do – A Arte do Pastorado, out. – dez 2001.


1Artigo elaborado a partir das normas da ABNT para a disciplina de Metodologia Científica II do Curso de Graduação em Teologia da Faculdade Evangélica do Paraná – FEPAR.

 

[2] Graduando em Teologia pela Faculdade Evangélica do Paraná – FEPAR.

 

[3] Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor, autor de numerosas obras.

[4] Richard L. Mayhue que faz parte do corpo docente do “Máster Seminary” e uns dos colaboradores do livro “Redescobrindo o ministério pastoral: Moldando o ministério Contemporâneo aos Preceitos Bíblicos”.

Uma ideia sobre “A importância do saber cuidar na prática pastoral

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *